Os dois termos “isenção e imparcialidade do jornalista” que se encontram dispersos em tantos “guias e orientações deontológicas e demais legislação relacionada com a comunicação social” são de facto duas mentiras. Mas são mentiras nobres.

No contexto platónico, a mentira nobre é uma mentira útil” usada, não para o próprio benefício, mas, sim para o que é útil para todos os cidadãos.

No jornalismo, o que se tenta exigir não é isenção ou imparcialidade. Isto é simplesmente quimérico. A falta de imparcialidade ou isenção começa com a decisão de editar um jornal de 32 páginas, boletim noticioso ou revista. O que é colocado e o que é deixado de lado, tem muito a ver com o que o jornalista, editor ou a redacção em si pensa. A isso chama-se linha editorial. Em resumo, linhas editoriais são os temas, assuntos e gêneros literários sobre os quais as editoras publicam. Este exercício não é inocente.

Num país, muitas coisas acontecem a cada minuto. Estão a acontecer a cada segundo. Nem todas elas vão para o jornal, como é obvio. O que vai fazer com que um acontecimento seja digno de notícia e outro não será o que o jornalista, a redação ou o dono do jornal vai achar relevante, segundo os tais famosos critérios de noticiabilidade, nem sempre pacíficos.

Ora, neste exercício, a isenção e imparcialidade não existem. Pode-se sim exigir do jornalista VERDADE, OBJECTIVIDADE do que se noticia. E nas regras do jornalismo, a disciplina de verificação é cardinal.

Eu posso ser membro do partido A ou B ou C. No exercício da profissão de jornalista, apenas sou obrigado a ser objetivo, verdadeiro. Existem para tal, regras deontológicas que regem a profissão.

Para terminar, apenas frisar que A OBJECTIVIDADE; A VERDADE não se presumem. Provam-se. Sendo assim, não vejo porque é que os jornalistas não podem se posicionar publicamente como membros da Frelimo. O que queremos do jornalista é a notícia. Se o que anda a escrever provar-se inverídico e contra as regras do jornalismo, então iremos denunciar este mau jornalismo. O fruto do seu trabalho é o único objeto de apreciação do público, principal beneficiário do jornalismo.

Com este andar, um dia começaremos a denunciar jornalistas que forem vistos a beber cerveja; a fumam, que vão tarde à cama. É que isto também contribui para mau trabalho.

PS: exigimos muito do nosso jornalismo quando é parente pobre da nossa democracia. É apenas um desabafo.