TotalEnergies e a “Força Maior”: a longa travessia da resiliência moçambicana

A Memória da Ferida

Hoje, a palavra “corolário” assenta-nos no espírito. O anúncio da TotalEnergies de que levanta a “força maior” é o corolário de quatro longos anos de sacrifício, de diplomacia silenciosa e de uma teimosia patriótica em não deixar o país vergar.

Para perceber a alegria de hoje, é preciso recordar a escuridão de Abril de 2021. Recordo-me vividamente desse dia. Quando a notícia surgiu, a expressão “força maior” soava-nos a um jargão legal, distante e frio. Poucos de nós, fora dos círculos jurídicos ou petrolíferos, compreendiam a sua real dimensão. Rapidamente aprendemos. Foi o som do silêncio: o parar das máquinas em Afungi, a evacuação de milhares de trabalhadores, o congelar de 20 mil milhões de dólares.

Foi o culminar do horror. O brutal ataque a Palma, em Março desse ano, não foi apenas um acto de guerra; foi uma mensagem directa e arrogante dos terroristas, que tentaram atingir o coração do maior investimento directo estrangeiro em África. Tocar em Palma era tocar no sonho moçambicano, na esperança de que os nossos vastos recursos pudessem, finalmente, reverter-se em prosperidade tangível para o povo.

A “força maior” foi a consequência económica dessa brutalidade. De um dia para o outro, o sonho transformou-se em pesadelo. Para a população de Cabo Delgado, que já vivia o terror, foi o apagar da última luz de esperança num desenvolvimento rápido. Para o empresariado nacional, foi uma catástrofe silenciosa. Empresas moçambicanas, pequenas e médias, que investiram, que se endividaram para prestar serviços ao projecto, viram-se subitamente com facturas por pagar e um credor que, legalmente, não tinha obrigação de o fazer.

A estagnação foi imediata. As dívidas acumularam-se. A confiança ruiu. O impacto em Maputo foi severo, mas em Cabo Delgado foi existencial. A província, duplamente flagelada pelo terrorismo e pela paralisia económica, mergulhou numa melancolia profunda. O sofrimento dos moçambicanos, que viam o seu futuro penhorado pela violência e pela burocracia internacional, era palpável.

A Travessia da Resiliência

Perante este cenário, a tentação do desespero era real. O país sentiu o golpe. Contudo, foi nesse momento de escuridão que a verdadeira fibra da nossa nação, forjada em lutas passadas, se revelou.

A liderança do governo anterior compreendeu que esta não era apenas uma crise militar ou económica; era uma crise de soberania. A resposta tinha de ser multidimensional, firme e, acima de tudo, moçambicana na sua concepção, ainda que internacional na sua execução.

Começou a longa travessia. Recordamo-nos da resiliência e da clareza estratégica. O governo resistiu às vozes que pediam soluções fáceis e perigosas, optando por um caminho mais difícil: o da restauração da integridade territorial como condição sine qua non para qualquer diálogo económico.

Isto exigiu uma diplomacia de coragem. Os contactos com o Ruanda foram decisivos, trazendo uma força disciplinada e eficaz que, em conjunto com as nossas Forças de Defesa e Segurança, começou a virar o rumo da guerra em Palma e Mocímboa da Praia. A mobilização da SADC, através da SAMIM, e o apoio da União Europeia na formação, demonstraram uma verdade que defendemos: a segurança de Moçambique é a segurança da região.

Paralelamente a esta frente de batalha, travava-se outra, mais discreta, nos gabinetes e nas salas de reunião. Os vários encontros entre a liderança moçambicana e Patrick Pouyanné, o CEO da TotalEnergies, não foram meras formalidades. Foram negociações complexas onde Moçambique teve de provar, com acções no terreno, que o Estado estava a ser restaurado. O relatório de Jean-Christophe Rufin foi um passo importante, ao estabelecer um roteiro para a responsabilidade social. A perseverança do Estado moçambicano foi a chave que começou a reabrir a porta da confiança, criando as fundações sólidas sobre as quais a nova liderança poderia edificar.

O Fruto da Continuidade

O anúncio de hoje é, por isso, uma vitória da continuidade e da maturidade do Estado. É a prova de que a perseverança, quando transmitida de forma coesa entre lideranças, gera resultados inequívocos.

O novo governo, liderado pelo Presidente Daniel Chapo, soube agarrar neste complexo dossier e dar-lhe o seguimento estratégico que ele exigia. A última fase desta exigente maratona negocial foi conduzida com o mesmo sentido de Estado, mantendo a firmeza e a intensidade no diálogo com os parceiros. Esta continuidade foi essencial para não se perder o momentum militar e diplomático alcançado.

O levantamento da “força maior” é, assim, o primeiro grande fruto colhido sob esta nova governação, demonstrando que o esforço colectivo e a transição ordeira de responsabilidades valeram a pena. Valeu a pena cada vida perdida na luta contra o terrorismo, cada hora de negociação diplomática, cada dia de sofrimento económico.

O anúncio de hoje não é um fim, mas sim um poderoso recomeço. O seu impacto será sentido em todas as dimensões da vida nacional.

Num momento em que o país enfrenta uma aguda crise de divisas, a retoma deste projecto gigantesco significa uma injecção de capital que trará estabilidade ao Metical e aliviará a pressão sobre a nossa balança de pagamentos. O “timing” não podia ser mais oportuno, complementando outras boas notícias, como a retoma do programa da Millenium Challenge Account (MCA), que sinalizam o regresso da confiança internacional em Moçambique.

Mas, mais importante que as divisas, é o impacto humano. Este anúncio significa que o empresariado nacional pode, finalmente, respirar. As dívidas acumuladas podem começar a ser pagas. Os contratos podem ser renegociados. As pequenas e médias empresas, que são o motor real da economia, podem voltar a contratar.

E, acima de tudo, isto significa a retoma do sonho. Do campo à cidade, e em especial em Cabo Delgado. Para as populações deslocadas, que sofreram o indizível, esta notícia não é sobre gás; é sobre a esperança de regressar a casa, de ter um emprego, de ver escolas e hospitais a serem construídos. É a promessa de que o sacrifício da província mártir não foi em vão.

A trajectória foi longa, o sofrimento foi real. Mas a história de Moçambique é uma história de resiliência. Hoje, não celebramos apenas um projecto de gás. Celebramos a capacidade de um povo e da sua liderança de, assegurando a continuidade, cair na escuridão e encontrar a força para se reerguer e caminhar, de novo, rumo à luz.

Published by Egidio Vaz

Member of Parliament @ Mozambique | Historian & Strategist