Li com atenção a recente edição do semanário Savana e os editoriais dispersos pela nossa praça jornalística, incluindo a Carta de Moçambique. O que encontrei não foi jornalismo de investigação nem análise técnica. Encontrei uma narrativa de miserabilismo, uma exploração comercial da tragédia e uma ignorância atroz sobre como funciona a gestão de Estado e a ciência meteorológica.
É tempo de colocar os pontos nos is. É tempo de separar a política séria da politiquice de encomenda.
Vivemos dias difíceis. As cheias de 2026 são um teste severo à nossa resiliência colectiva. Mas tentar colar ao Governo o rótulo da “improvisação” ou da “negligência” é intelectualmente desonesto. É uma mentira que não resiste ao confronto com os factos nem com a ciência.
A Ciência não é uma bola de cristal
Comecemos pela pedagogia, já que falta literacia científica a muitos dos que hoje apontam o dedo. O argumento central dos críticos, repetido à exaustão no Savana, é que “as cheias foram anunciadas e o Governo ignorou”. Esta afirmação é falsa e revela um desconhecimento profundo sobre modelos numéricos de previsão.
A meteorologia é física e matemática. Não é bruxaria. Como bem explicam os técnicos do INAM — e é preciso ouvir quem sabe —, um modelo numérico funciona com condições iniciais. Se alteramos essa condição inicial em 0,1 milímetros, o resultado final muda completamente. É como uma viagem de carro de Maputo a Gaza. Planeamos andar a 100 km/h e chegar em três horas. Mas apanhamos trânsito, chuva, um furo. As condições mudam. A previsão inicial altera-se.
Não existe nenhum país no mundo, nem os Estados Unidos, nem o Japão, que consiga fazer uma previsão de tempo exacta com semanas de antecedência. Existe uma lacuna científica entre a previsão sazonal (que dá tendências gerais de três meses) e a previsão do tempo (que é válida para 24 ou 48 horas). O Savana quer convencer o povo de que o Governo sabia exactamente a hora, o local e o volume da chuva em Setembro. Isso é ficção.
O INAM, o INGD e as agências de gestão de bacias hidrográficas monitorizam a situação em tempo real. A atmosfera é dinâmica. Emitir um alerta de evacuação total com base numa previsão de longo prazo que depois não se concretiza cria um problema ainda maior: a perda de confiança da população. É o dilema do “lobo vem aí”. A gestão de risco é feita com base em probabilidades científicas, não em palpites de café.
A liderança de Chapo e o legado de gestão de risco
Dizem alguns, na sua cegueira crítica, que o Presidente Daniel Chapo “ignorou” o CENOE ou o INGD ao criar uma Sala de Operações na Presidência. Esta crítica, veiculada pela Carta de Moçambique, roça o ridículo.
Desde a governação do Presidente Filipe Nyusi que Moçambique se tornou um campeão africano na gestão de riscos de desastres. Aprendemos com o Idai, aprendemos com o Kenneth. Temos hoje protocolos que não tínhamos há dez anos. O Presidente Chapo, ao instituir uma sala de crise no Gabinete, não está a esvaziar as instituições. Está a exercer a sua função de Comandante-Chefe. Está a encurtar a cadeia de comando.
Em situações de calamidade, a burocracia mata. A decisão precisa de ser rápida. O Presidente precisa de ter a informação em tempo real, sem filtros, para alocar recursos, mobilizar as Forças de Defesa e Segurança e coordenar com os parceiros. Isso chama-se liderança. Chamar a isto “ignorar as instituições” é não perceber nada de gestão de crise. É querer que o Presidente fique sentado à espera de relatórios enquanto o povo sofre. Chapo escolheu a acção. Escolheu priorizar a vida.
O ocaso de um jornal e a agenda do “quanto pior, melhor”
Agora falemos do elefante na sala. O comportamento editorial do Savana nesta crise não é inocente. Quem conheceu este jornal nos anos 90 e 2000, como uma referência de integridade e independência, hoje não o reconhece.
O jornalismo custa dinheiro. A isenção custa dinheiro. Consta, em voz baixa nos corredores da cidade, que o Savana enfrenta gravíssimos problemas de tesouraria, com salários em atraso há quatro meses. Quando a sobrevivência financeira aperta, a ética jornalística costuma ser a primeira vítima.
O sensacionalismo vende. O caos vende. Manchetes que gritam “Catástrofe Ignorada” vendem jornais nas esquinas. Artigos encomendados, que servem agendas políticas específicas em troca de oxigénio financeiro, tornaram-se a norma. O jornal parece estar à venda ao melhor postor, transformando-se num panfleto dos “contra-pátria”.
É triste ver uma instituição com história a rebaixar-se a este papel. Em vez de fazer pedagogia sobre os riscos, em vez de mobilizar a solidariedade, o jornal prefere semear a discórdia e a desconfiança nas instituições do Estado. Aproveitam-se da dor das famílias deslocadas para facturar politicamente e financeiramente. Insinuam que o Governo não se importa, quando a realidade mostra equipas do INGD, militares e governantes no terreno, com água pela cintura, a fazer o que é humanamente possível perante a força da natureza.
Moçambique não precisa de profetas da desgraça. Precisa de união. A época chuvosa e ciclónica ainda decorre. O solo está saturado. Os rios estão cheios. O perigo é real.
O que o Governo está a fazer é mitigar danos. É usar a ciência disponível, com as suas limitações inerentes, para salvar vidas. É coordenar esforços a partir do mais alto nível da magistratura.
Aos críticos de bancada, aos que escrevem editoriais incendiários no conforto do ar condicionado enquanto o povo e o Governo lutam na lama, deixo um recado simples: a vossa narrativa não cola. O povo sabe quem está no terreno. O povo sabe que a chuva é um fenómeno natural, mas a resposta a ela é política e técnica. E essa resposta está a ser dada com rigor, com prontidão e com sentido de Estado.
O Savana pode continuar a gritar o seu miserabilismo. Nós continuaremos a trabalhar. A história não reza os fracos, nem os que lucram com a desgraça alheia. A história reza quem faz.