Moçambique 2026-2031: A Caminho da Recuperação ou Mais Uma Oportunidade Perdida?

O momento da verdade

Na passada semana, em Washington, foi selado um compromisso que pode definir o futuro da nossa economia para a próxima meia década. O Grupo Banco Mundial aprovou a nova estratégia para Moçambique, colocando sobre a mesa um pacote financeiro que pode chegar aos 2,5 mil milhões de dólares. Mas, para além dos números astronómicos que muitas vezes nos parecem distantes da realidade do “chapa” ou do mercado, o que é que este documento diz, de facto, sobre a nossa vida?

Diz-nos, com uma franqueza brutal, que vivemos aquilo a que os economistas chamam uma “década perdida”. Hoje, em 2026, o rendimento médio de cada moçambicano é inferior ao que era em 2016. Enquanto o gás e o carvão faziam crescer as estatísticas, a vida real da maioria estagnou. É tempo de olhar para este novo plano não como uma tábua de salvação, mas como um roteiro de urgência.

O dilema dos jovens: 500 Mil para 30 Mil

O diagnóstico mais assustador e urgente desta estratégia reside num único rácio: todos os anos, 500.000 jovens moçambicanos entram no mercado de trabalho, cheios de energia e sonhos. Contudo, a nossa economia formal só consegue criar 30.000 novos empregos por ano.

Esta é a bomba-relógio que o Banco Mundial e o Governo pretendem desactivar. Fily Sissoko, o Director do Banco Mundial para a região, foi claro: a nova estratégia representa uma mudança de foco radical para a criação de emprego. Não se trata apenas de construir estradas, mas de garantir que essas estradas levam a fábricas, machambas produtivas e hotéis cheios, onde os nossos jovens possam trabalhar.

Os Quatro Pilares da Mudança

Ao contrário de planos anteriores, dispersos por dezenas de objectivos, esta estratégia concentra o “poder de fogo” em quatro frentes de batalha essenciais:

  1. Arrumar a Casa (Estabilidade Macro-Fiscal): Não há crescimento sem contas em dia. O objectivo é reduzir a dívida interna de 31% para 28% do PIB até 2031. Isto significa disciplinar a despesa pública – nomeadamente a massa salarial que consome quase tudo o que o Estado arrecada para libertar dinheiro para investir em escolas e hospitais.
  2. Luz para Todos (Energia): A energia é a nossa grande vantagem. O plano é ambicioso: levar electricidade a mais 6,5 milhões de moçambicanos. Mais do que acender lâmpadas, trata-se de alimentar a indústria. O plano inclui a construção da linha de transporte “espinha dorsal” que finalmente ligará o Norte, o Centro e o Sul, permitindo-nos exportar a energia das nossas barragens.
  3. Educação com Propósito: De que serve um diploma se não houver saber-fazer? A meta é apoiar 9 milhões de estudantes, com um foco especial nas raparigas, garantindo que o ensino técnico prepara, de facto, para as necessidades das empresas.
  4. A Economia Real (Agricultura e Turismo): O Banco Mundial aposta as fichas no Corredor de Nacala para o agronegócio e na província de Inhambane para o turismo. O objectivo é criar 815.000 novos ou melhores empregos até 2031, dos quais 25.000 especificamente no turismo.

Paz: a condição essencial

Nenhum destes planos funcionará se o país estiver em chamas. É por isso que uma fatia crucial deste financiamento, cerca de 450 milhões de dólares, vem através de um fundo especial para a Prevenção e Resiliência (PRA).

Este dinheiro destina-se a atacar as raízes do conflito no Norte: a falta de esperança e a exclusão. O plano reconhece que não se vence a insurgência apenas com armas, mas com inclusão, garantindo que a riqueza dos recursos naturais de Cabo Delgado e Nampula se traduz em bem-estar para as comunidades locais, e não apenas para elites distantes.

O desafio da execução

Temos o diagnóstico (“a década perdida”), temos o remédio (investimento focado em emprego e energia) e temos o financiamento. O que nos tem faltado historicamente é a capacidade de execução.

Os riscos são reais: a instabilidade política, os choques climáticos que ciclicamente nos atingem e a tentação de usar recursos públicos para fins que não o desenvolvimento. Mas, pela primeira vez em muito tempo, há um alinhamento claro entre o que precisamos e o que está a ser financiado.

Esta estratégia 2026-2031 é uma aposta massiva no nosso potencial. Cabe-nos a nós, sociedade civil, sector privado e cidadãos, fiscalizar cada passo e garantir que, daqui a cinco anos, não estejamos a falar de mais uma oportunidade perdida, mas sim do início da nossa verdadeira recuperação.

Published by Egidio Vaz

Member of Parliament @ Mozambique | Historian & Strategist

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