Ainda na senda da avaliação da primeira metade do mandato do Presidente Nyusi, algo chamou-me atenção: a institucionalização do preconceito como método de análise. Está a ficar cada vez sedutor analisar a governação com recurso a tácticas argumentativas falaciosas e aos poucos vamos caminhando para o mato. Três são os principais preconceitos:
• Primeiro: “availability bias”, ou seja, o preconceito da disponibilidade – em psicologia, o preconceito da disponibilidade é um atalho mental que se baseia em exemplos imediatos que chegam à mente de uma determinada pessoa ao avaliar um tópico específico, conceito, método ou decisão.
• Segundo: “heurística de simulação” – é uma estratégia mental simplificada, segundo a qual as pessoas determinam a probabilidade de um evento baseado em quão fácil é imaginar o evento mentalmente.
• Terceiro: preconceito de ancoragem e ajustamento – é uma heurística psicológica que influencia a forma como as pessoas avaliam intuitivamente as probabilidades. De acordo com essa heurística, as pessoas começam com um ponto de referência implicitamente sugerido (a “âncora”) e fazem ajustes para alcançar sua estimativa.
Poderíamos também avaliar a primeira metade da governação do Presidente Nyusi recorrendo ao modelo Cynthia Scott & Dennis Jaffe sobre as quatro fases de resposta à mudança. Não há dúvidas que a chegada do Presidente Nyusi ao poder representou uma mudança a todos níveis: transição geracional, do modelo de governação, dos problemas encontrados e dos métodos de resolução desses mesmos problemas. Tanto ao nível interno como externo, o Presidente Nyusi foi recebido com altas doses de cepticismo e até de incredulidade.
Todavia, à medida que o tempo foi passando a mudança começou a dar corpo. Schott e Jaffe sugerem que no processo de mudança ou transição organizacional, algumas pessoas passam por pelo menos quatro etapas antes de se conformarem ou mesmo aceitarem que estão noutra era: negação, resistência, curiosidade e compromisso. As vezes, quando alguns se apercebem do erro, podem saltar da primeira etapa (negação) para a última (compromisso).
1. Na primeira etapa (NEGAÇÃO) as pessoas simplesmente acham a mudança uma aberração. As pessoas estão felizes com o status quo e as mentes bloqueadas pelo vício da experiência, simplesmente rejeitam a realidade da mudança.
2. Na segunda etapa (RESISTÊNCIA), ao começarem a reconhecer a mudança, as pessoas começam a resistir a ela. Segundo os autores, tal decorre da intuitiva aversão à perda. Em vez de pensarem na mudança, começam a se concentrar nos elementos susceptíveis de serem perdidos (benefícios, status quo, vantagens, regalias, etc.). A nossa mente começa a dar mais valor ao que se vai perder do que verificar os ganhos que se podem obter com a mudança. Assim resistimos a mudança. Fazemos isso primeiro ao nível emocional, mostrando a raiva, ansiedade, medo ou amargura e posteriormente, engajando activamente na resistência; empregando todas nossas faculdades intelectuais e críticas para encontrar razões para resistir.
3. Na terceira etapa (CURIOSIDADE) quando os dirigentes souberem lidar com a resistência e se envolverem na clarificação e demonstração positiva, as pessoas podem começar novamente a prestar atenção ao futuro. Nessa fase, elas começam a se interessar pelas implicações da sua participação no processo de mudança, procurando formas de superar a resistência. Este pode ser tanto um momento caótico como emocionante – particularmente quando os benefícios das mudanças são significativos.
4. Por fim, na quarta etapa (COMPROMISSO/engajamento). Este é o estágio durante o qual os indivíduos são reabilitados e aceitam os novos métodos ou processos.
Antes de continuar, gostaria de conhecer em que etapa estão os meus amigos.
• Se está na primeira, então está muito mal. Nesta etapa, você está extremamente polarizado; os seus ouvidos estão lacrados com cera de abelhas, alimenta-se dos três preconceitos acima referenciados e quando está online, só vai “laikar” temas amargos. Entra e sai das redes sociais infeliz, frustrado e cada vez raivoso. Não aprende de bons exemplos pois o seu interesse é provar que tudo está errado. Os seus hábitos de consumo de notícias são precários. Provavelmente não gosta de tantos canais e apenas sintoniza um, que você acredita que diz a verdade. Fazendo assim, você perde outras verdades e perde a habilidade de, do conjunto de informação que obtiver, poder fazer o seu juízo independente. É provavelmente “seguidor ferrenho” de alguns e por isso fica zangado ou mesmo frustrado quando ele mostra outra vertente da notícia ou da realidade. Em suma, não é útil para a construção de uma sociedade tolerante. Veja se rapidamente mude de comportamento.
• Se está na segunda etapa, o seu comportamento não é grande coisa. À semelhança da primeira, o senhor ou a senhora está muito mal informado visto que as suas escolhas vão em função dos seus preconceitos. É uma pessoa polarizada, sabe pouco para além do que gosta de ver e ouvir e é muito limitado. Independentemente do seu nível de instrução ou intelectualidade, o senhor ou a senhora é uma quadrada. Usa a inteligência e conhecimento para fins improdutivos e, nalgumas vezes subversivos. É PROVAVELMENTE das pessoas que usa argumentos falaciosos e aplica o seu o seu capital simbólico para passar mensagens enganosas. Contribui pouco para acrescentar o conhecimento e é menos didáctico quando partilha alguma informação.
• Se está na terceira etapa, então o senhor ou a senhora é um/a herói/heroína. Esta fase de curiosidade é típica de ressignificação. Está no bom caminho visto que o seu interesse é benevolente. Quer se envolver de forma crítica para o bem da sociedade. Às vezes não sabe nada. Mas o interesse pelo saber far-lhe-á perguntar em vez de criticar. Alia-se aos que sabem, é tolerante à ideia contrária e não insulta. Os seus hábitos de leitura são diversos e consegue tirar ilações do que ouve, lê e escuta. Não se guia pela linha polarizada e tenta sempre buscar o conhecimento de forma independente. Segue um grupo diverso de fazedores de opinião e confronta as fontes.
• Se está na quarta fase, então é mesmo um aliado do progresso. Mas atenção: o senhor ou a senhora tem mais uma missão: ajudar os das fases anteriores a melhor entenderem o seu papel na sociedade.
Se tiver lido bem o texto, irá concluir que dependendo do estágio de mudança em que estiver, saberá melhor o que deve fazer para melhorar. Estar no quarto estágio não significa concordar com tudo ou transformar-se em membro de qual partido for. Estar no quarto estágio é reconhecer a sua importância no processo de mudança; é estar consciente da existência de outras realidades por si desconhecidas e que a sua missão é de buscar de forma incessante o conhecimento; é abandonar os preconceitos e superar as barreiras ideológicas. É exercitar o autoconhecimento.
Numa única palavra: a qualidade de avaliação que tiver feito à primeira metade do mandato do Presidente Nyusi dependerá do nível do seu conhecimento sobre o seu trabalho. E não necessariamente sobre o que ele disse que fez. E, mais ainda, a qualidade de avaliação dependerá também do estágio em que estiver neste processo de mudança.