VITAMINAS PARA A CIDADANIA II: reparar a narrativa sobre o país para servir a agenda nacional

É possível acreditar em alguém que te escravizou, te explorou, te combateu; lutou com ele e finalmente lhe venceu e hoje te diz que tem melhores dicas para encontrares a felicidade?
O problema das relações entre Estados não é brincadeira de “muyudus” (entenda-se miúdos). É luta constante de cooperação ou competição ou aproveitamento, que nem sempre é mútua.

Quarenta anos depois da independência, estamos a escrever história na mesma ardósia, com o mesmo giz e com mesmos professores. É urgente que encontremos formas de como escrever a história que sirva nossos interesses.
Se alguém julga que Moçambique ficará melhor com ajuda externa ou, quando necessário, pressão externa está enganado. A pressão externa, se existe, servirá o interesse desses agentes externos e seus povos. Só a pressão interna, consciente e atenta é que poderá defender os interesses internos, ao mesmo que deverá trabalhar para melhorar o funcionamento das instituições. Por isso julgo que uma coligação interna contra o estado na sua relação com o exterior enfraquece o poder de barganha do estado nas negociações e por conta disso, precipita-o para acordos desvantajosos. A sociedade civil (mídia, organizações não-governamentais, confissões religiosas, intelectuais, académicos, etc.) tem uma missão de, em cada momento da história, saber articular o seu interesse com o interesse nacional.

Por isso que é preciso consertar a narrativa, fazer diferente do que está acontecer actualmente. Gostaria de ver por exemplo, um discurso de um sindicalista, diferente de um oficial do FMI; um discurso de um jornalista diferente do da New York Times.

A propósito, como é que um discurso do jornalista da NY Times chega a ser igualzinho ao do jornalista Moçambicano? Quando o jornalista da NY Times escreve e pressiona um estado qualquer, por exemplo, sobre a dívida, ele está agindo no interesse do seu país. Quando uma “sociedade civil” americana pressiona para “cortar ajuda” a países subdesenvolvidos, eles estão agindo no seu interesse. Quando um parlamento veta o incremento orçamental para ajuda pública, ele está a proteger o seu interesse.

Quando esses estados decidem fazer o contrário, também estão agir no seu interesse, para avançar a sua agenda. E quando a sociedade civil, mídia e outros fazedores de opinião o fazem em apoio aos seus estados, eles estão fortalecendo a posição do seu estado. E o que estariam a fazer os actores nacionais quando alinham no mesmíssimo diapasão, sem ter em conta o interesse nacional?
A experiência da revolução chinesa ensina que em situações de conflito interno e externo, os patriotas devem antes se unirem contra o inimigo externo antes de tudo. E depois vê-se internamente.

Depende dos Moçambicanos, principalmente dos que têm vozes audíveis pintar Moçambique da forma como querem. Se querem-no mal pintado ou bem pintado, tudo depende deles. E, será justamente essa imagem com a qual os outros irão articular seus interesses.

Deixo-vos com o vídeo de Akon (músico americano, de origem senegalesa), que recentemente esteve em Rwanda para falar do imperativo de refazer a imagem de África.

PS: Talvez fosse interessante acrescentar mais duas linhas
1. Muitos poderiam perguntar o que é interesse nacional? Avanço a lista de alguns “interesses nacionais”
a. Direito a soberania nacional – o que significa a capacidade de sermos nós a definir o que prioritário, urgente e planificar de acordo com as nossas necessidades
b. Direito a Paz e segurança
c. Direito ao desenvolvimento – o que significa, o direito de sermos nós a dizer o que vem em primeiro, em segundo ou terceiro lugar em termos de prioridades
d. Direito ao FAIR TRADE – ou seja, o direito a podermos comercializar em igualdade de oportunidades com outros povos, sem imposições
e. Direito a boas relações internacionais – ou seja, podermos nos relacionar livremente com quem quisermos sem temer represálias
2. O que acabei de dizer acima não é incompatível com a nossa missão de sermos cidadãos activos, vigilantes e interventivos; fiscalizadores da acção governativa e acérrimos combatentes da corrupção, desde o momento que sirva o interesse nacional.