Trabalho migrante e memória na África Austral: Clements Kadalie e a Industrial and Commercial Workers’ Union of Africa

A pergunta sobre o momento em que um indivíduo deixa de ser tido por estrangeiro e passa a integrar a história de um país readquire urgência sempre que a xenofobia regressa ao espaço público sul-africano. As vagas recorrentes de hostilidade contra africanos oriundos de territórios vizinhos não constituem somente um problema de ordem pública; exprimem uma concepção restritiva de pertença nacional que a própria história do país contraria. A trajectória de Clements Kadalie e da organização que ajudou a fundar permite examinar essa questão em terreno histórico.

Kadalie nasceu em 1896 na Niassalândia, território que viria a constituir o actual Malawi. À semelhança de milhares de africanos da região, deixou cedo a terra natal em busca de trabalho, percorrendo Moçambique e a Rodésia do Sul antes de chegar à Cidade do Cabo em 1918. Trazia consigo formação como professor e escassos recursos materiais. A sua deslocação inscrevia-se num movimento de muito maior amplitude.

Nas primeiras décadas do século XX, a economia sul-africana organizava-se em torno de um sistema regional de trabalho migrante. Centenas de milhares de homens atravessavam as fronteiras coloniais a partir do Malawi, de Moçambique, do Lesoto, do Zimbabwe e de outros territórios, alimentando as minas de ouro e de carvão, os caminhos-de-ferro, as explorações agrícolas e os portos. O crescimento económico do país assentou, desde a origem, na força de trabalho de toda a região, e não numa população circunscrita às fronteiras do Estado.

Importa recordar que essas fronteiras, hoje frequentemente tomadas por dados naturais, são mais recentes do que as comunidades que dividem. Muito antes de as potências europeias traçarem linhas sobre o mapa da partilha colonial, as populações da África Austral circulavam, comerciavam e estabeleciam laços de parentesco para além desses limites. A geografia política resultou da conquista; as relações sociais que ela procurou enquadrar possuíam raízes bem mais antigas.

Foi neste universo de mobilidade que Kadalie se fixou na sociedade do Cabo. Cedo identificou a condição estrutural do trabalhador negro, que ocupava as tarefas mais penosas, auferia salários reduzidos e laborava sem protecção legal efectiva, num quadro em que o Estado colonial tratava esses corpos como mão de obra substituível.

Em 1919 contribuiu para a criação de uma organização destinada a confrontar essa ordem, a Industrial and Commercial Union, mais tarde designada Industrial and Commercial Workers’ Union of Africa e conhecida pela sigla ICU. Nascida entre os estivadores do porto da Cidade do Cabo, depressa ultrapassou a sua base inicial e passou a congregar trabalhadores urbanos e rurais, qualificados e não qualificados.

A expansão da ICU revelou-se notável. Em poucos anos estendeu-se por várias províncias sul-africanas e transpôs fronteiras, com implantação em centros como Durban, Joanesburgo, Bulawayo, Lüderitz e Livingstone. As estimativas de filiação variam entre os cem mil e os duzentos e cinquenta mil membros, o que fez dela uma das maiores organizações de trabalhadores negros que o continente conhecera até então.

No centro desse processo encontrava-se um migrante malawiano que a ordem jurídica classificava como estrangeiro e que, na prática, se converteu numa das figuras decisivas do sindicalismo negro da região. A historiografia atribui-lhe o papel de primeiro grande dirigente sindical africano da África Austral, capaz de articular numa mesma estrutura trabalhadores de origens e estatutos diversos.

Este percurso ilumina uma dimensão raramente reconhecida. A África do Sul que certos discursos contemporâneos reivindicam como pertença exclusiva dos sul-africanos foi edificada, em medida considerável, pelo trabalho de malawianos, moçambicanos, basotho, zimbabweanos e de outros povos vizinhos. A esses trabalhadores se deve a construção material das minas, das ferrovias, das fábricas e dos portos, e igualmente a edificação das estruturas de resistência, como a própria ICU, que prepararam o terreno para as lutas posteriores contra a segregação e a exploração.

Apesar dessa centralidade, o nome de Clements Kadalie permaneceu largamente ausente da memória pública sul-africana, confinado a arquivos, a estudos especializados e a investigação académica. Só em período recente se esboçou um esforço mais consistente de o reintegrar na narrativa do movimento operário. A omissão não é fortuita, pois traduz o modo como a construção da memória nacional selecciona quem merece figurar entre os fundadores e quem fica relegado à condição de presença acessória.

É neste ponto que a história se reencontra com o presente. Quando se examinam as pessoas que concorreram para a formação de um país, o critério decisivo raramente é o lugar de nascimento; conta sobretudo a obra realizada e o legado deixado. Se esse princípio se aplica às figuras tutelares do passado, dificilmente se justifica que dele se exclua quem hoje atravessa as mesmas fronteiras em busca de dignidade. A trajectória de Kadalie indica que a cidadania efectiva se mede menos pela origem do que pelo contributo, e que o trabalho de quem ajudou a construir uma sociedade permanece mesmo quando a memória oficial o ignora e os discursos do momento o pretendem apagar.

Published by Egidio Vaz

Member of Parliament @ Mozambique | Historian & Strategist

Comente

This site uses Akismet to reduce spam. Learn how your comment data is processed.