Crise zimbabweana: um penteado que urge desfazer

Depois de um longo período de ausência neste portal, decidi voltar. Um regresso não muito estranho, pois este espaço é meu. E se estive ausente, na verdade, não foi por maus motivos. Este espaço foi concebido não para bloggar, mas sim expor as mais importantes ideias sobre o mundo e o meu país, da mesma forma que o faço, aqui, diariamente, sempre que posso.

Hoje, darei a continuidade à análise da crise zimbabweana, para falar ou tentar compreender as causas que estão por detrás do cepticismo de alguns Estados africanos, ao não se insurgirem publicamente contra as atrocidades cometidas por Robert Mugabe e seus aliados.

O temor pela desestabilização regional

Parece-me que uma das razões que levam os estados da África Austral a tomar posições dúbias em relação ao que está acontecer no Zimbabwe é o temor pela retaliação que este possa infringir aos seus vizinhos.

Tomemos o caso de Moçambique, ou África do Sul (depois): numa situação em que estes decidem exercer pressão sobre Mugabe, adoptando sanções económicas, Mugabe pode na realidade, retaliar, desestabilizndo por essa via, toda a região austral de África.

Moçambique poderia por exemplo, cortar o fornecimento da energia de Cahora Bassa (aliás, o Zimbabwe deve a Hidro-Eléctrica de Cahora Bassa biliões de  dólares), cortar o fornecimento de combustível, através do PIPELINE Beira-Mutare ou mesmo proibir o escoamento de seus produtos através dos portos da Beira e do Corredor de Limpopo.

Por sua vez, o Zimbabwe, poderia desestabilizar o país infringindo duros golpes à economia nacional, sem no entanto, descurarmos um provável uso da força militar.

Economicamente  poderia também retaliar, adoptando o princípio de reciprocidade, cortando igualmente as suas relações comerciais com Moçambique. Ou mesmo fechando as suas fronteiras e expulsando os milhares de moçambicanos que, apesar das crise, continuam a residir por aquelas bandas.

A fronteira ocidental entre Moçambique e  Zimbabwe é bastante ténue. O policiamento é quase inexistente e poderia ser muito bem aproveitado por grupos armados e ou bandos de assaltantes para desestabilizar tanto o interior do Zimbabwe como Moçambique, aliás, como teria acontecido com os chamados “Chimwenjes“, um grupo de homens armados que surgiu e desapareceu por morte natural, em 1992, logo após a assinatura dos Acordos gerais de PAZ entre o Governo e a Renamo. Supunha-se que se tratava de um grupo de ex-guerrilheiros da Renamo, apoiados por chefias militares zimbabweanas, cujo objectivo era pura e simplesmente sabotar o Acordo Geral de Paz, fazendo-se passar por homens armados da Renamo, numa altura em que, ao abrigo do AGP, todos militares se encontravam acantonados.

A recente captura de homens armados juntamente com o seu material bélico na parte oriental do Zimbabwe, prova mais uma vez que, numa situação de fechamento de fronteiras entre os dois países, grupos irregulares como estes poderiam livremente passear e organizar-se entre as terras-sem-ninguém que os separa.

A experiência de Moçambique com situações destas é rica: durante a guerra civil entre Renamo e o estado Moçambicano, as relaçõeos diplomáticas entre a república do Malawi e Moçambique não eram boas. Dizia-se que Hastings Kamuzu Banda e o seu país constituiam a retaguarda segura das forças da Renamo, onde se reabasteciam; facto que veio a se comprovar. Todavia, mesmo depois de expulsos, em 1989, a Renamo usava  as terras-sem-ninguém para  se reorganizar e de lá, encetar incursões armadas no interior de Moçambique.

O mesmo poderia acontecer com a República da África do Sul. Mas para o caso concreto moçambicano, diga-se de passagem, a República do Zimbabwe é militarmente mais forte do que a República de Moçambique. Tanto em termos de logística militar como em preparação física dos seus homens. Pior, Moçambique só pode fazer guerra como os Reinos de Lesotho ou Suazilândia. E, o Estado moçambicano está consciente nisso. A sua capacidade de suportar e gerir crises, sejam militares, sejam sociais é fraca , ninguém no governo está interessado em se lançar contra um “búfalo ferido” , mais conhecido por Robert Mugabe.

A única palavra de protesto na região veio da Zâmbia, onde Ley Mwanuassa, seu presidente, chamou da crise zimbabweana de Titanic! Mas pode-se compreender: é que Mwanauassa, como Bingu Wa Mutharika do Malawi, não fazem parte do grupo dos “libertadores”. Se atentarmos para os partidos políticos ora no poder á nível da África Austral, poderemos ver que, para além da Zâmbia e Malawi, todos os partidos no poder foram movimentos de libertação nacional: ANC, FRELIMO; SWAPO, CCM, MPLA, são os partidos conscientes da cumplicidade existente entre eles.

Nalgum momento um ajudou o outro: A Frelimo foi ajudada pelo CCM na altura das guerras de libertação nacional; por sua vez, a ZANU PF foi ajudada pela Frelimo quando Mugabe e seus homens combatiam o regime de Ian Smith o MPLA e FRELIMO acobertaram os combatentes do ANC na altura do Apartheid na África do Sul, etc. E todos estes estão conscientes que a queda de um, pode significar o fim do seu siclo a nível da África Austral.

Não é por acaso que Mwanawassa e Mutharika são vistos como “forasteiros” no actual xadrez político regional, não tendo portando, muita voz nem influência no interior da Cimeira da SADC.

Outro facto prende-se com o facto de Zambia e Mallawi estarem mais virados para a COMESA (organização para o mercado comum para África Oriental e Austral) do que para SADC, Comunidade para o Desenvolvimento dos Países da África Austral.

Independentemente dos motivos, acho importante que os estados membros da África Austral tivessem que fazer mais do que actualmente fazem para recuperar o pouco do que resta no Zimbabwe: as fronteiras e as pessoas.

Não basta a diplomacia silenciosa, que na verdade, não passa de um exercício vergonhoso de consentimento com o que está a acontecer naquele país, tentando á todo custo manter o camarada amigo no poder apenas por terem aparentemente “sofrido”  juntos em algum momento da história recente deste continente.

8 thoughts on “Crise zimbabweana: um penteado que urge desfazer

  1. Compreendo a suas apreensões quanto à possibilidade de uma reacção militar do zimbabwe… Mas os moçambicanos aind têm muita experiência de combate, enquanto renamo ou governo, ao contrário do exército do zimbabwe, que de experiência tem apenas a guerrilha, mais antiga no tempo e logo, já sem experiência nos quadros médios do seu exército… É certo que Moçambique não tem força aérea (http://64.233.183.104/search?q=cache:TRG5ZYjomlgJ:www.worldairforces.com/countries/mozambique/moz.html+mozambique+%22air+force%22&hl=pt-PT&ct=clnk&cd=2&gl=pt&client=firefox-a)
    embora aqui surjam os MiG acho que actualmente já não os usam, pois não?

    A lealdade a Mugabe do seu exército é contudo muito questionável:
    http://news.bbc.co.uk/2/hi/africa/1754063.stm

    e não quero acreditar que Portugal não ajudaria em caso de um ataque a Moçambique, como fez quando o Senegal e a Conakry invadiram a Guiné-Bissau com ajuda francesa… E sim houve operações de combate de fusileiros portugueses na Guiné, nunca noticiadas, mas reais em defesa da recolha de refugiados para a nossa fragata Vasco da Gama…

    Não, Portugal estaria do vosso lado, assim como esteve sempre do lado de Timor.

    1. esta calmo estes diaa a que se deve? eu gosto das suas intervencoes e suas opinioes sobre varias situacoes do pais e do mundo. principalmente nestes diasem que se avizinham as eleicoes gerais e provincias. o seu silencio me preocupa

  2. boa noite . faca favor, eu sou estudante da faculdade de economia na universidade Eduardo Mondlane em Maputo, tenho um trabalho acerca do Zimbabwe.factores determinantes da crise, os indicadores, mecanismos de tranmissao, as causas! so que nos nao temos acesso a muita informacao acerca do assunto. o senhor pode ajudar me ? o trabalho e para entregar na segunda feira.

    boa noite

  3. Na verdade a politica do Robert Mugabe e uma politica selvagem que so ele proprio sabe o que pretende com tudo o que esta acontecendo. Fala em nome do povo mas nada esta em beneficio deste.

    Os presidentes da Africa austral sao todos eles cobardes pela situacao provocada pelo Robert Mugabe porque o maior sofredos disto tudo e o povo Zimbabuiano e os Povos vizinhos.

    Ian Smith disse a trinta anos atras que Robert Mugabe haveria de destruir o Zimbabwe e dito e feito esta acontecendo.

  4. Caro Egídio Vaz,

    Está de parabéns pelo seu blogue, que aliás acho um dos melhores para consultas de mais diversos temas de interesse doméstico e não só, questões candentes da política moçambicana em particular, e do estrangeiro, em geral. O seu tema de hoje, sobre o Zimbabwe é a razão principal que me levou a escrever estas pouquíssimas linhas. Estou ciente de que não serei compreendido por aqueles que, de forma incauta, não lerem com sentido de ler a este comentário que faço sobre Mugabe, afirmando a minha paixão pelo presidente do Zimbabewe. Penso que nunca nenhum presidente africano desafiou o ocidente como o faz o presidente Mugabe. Este mito de homem tem sabido mostrar o quanto as convicções determinam o comportamento de um homem. Em nenhum momento Mugabe este contra os “brancos”, nem os mandou embora, tanto quanto sei apenas até de maneira humilhante que os farmeiros dessem do que tinham como extensão de terra um terço aos agricultores zimbabweanos, pedido que foi recusado pelos “senhores feudais”, situação que levou o presidente Mugabe a tomar as medidas que tomeou. Os farmeiros que se dignaram em acatar aos apelos do presidente Mugabe hoje trabalham e convivem amigavelmente com os agricultores zimbabweanos. A situação da terra no Zimbabwe sempre foi um barril de polvoras, porquanto o povo zimbabweano, na altura, recordo-me, contentava-se apenas em trabalhar para os farmeiros brancos, não tinham qualquer direito de obter uma parcela de terra fértil para a sua produção. Os que tinham eram em números escassos. O que o presidente Mugabe fez foi de solicitar que estes cedessem um terço das suas terras aos agricultores zimbabweanos, ou seja, “pretos”. Dirão algumas pessoa que o povo está a sofrer, pois está, mas a culpa não é do Mugabe e nem pode ser, justamente porque ele está a defender o seu povo contra um desejo, apenas isto, de um país que se preze como dono do Zimbabwe! E digo mais, não há processos históricos sem vítimas, assim como não há processos históricos perfeitos, tudo o que o Mugabe está a fazer fa-lo pelo seu povo, a bem do seu povo. Como querem que a economia do Zimbawe ande se, diga-se a bem da verdade, o Ocidente influenciado pela Inglaterra e os EUA decretaram o embargo económico contra Zimbabwe e o seu líder? É como se tivessem lhe amarado as penas e os braços e pedissem para que ele nadasse, como??? Antes Mugabe era aliado número um dos ingleses e americanos, hoje porque decidiu dar ao César o que é do César ao seu povo é tido como um ditador! Não é digno de vencer aqueles que pelo sangue tomam a decisão de recuar, penso que a morte do povo zimbabweanos é preocupante, porém, a voz do comando do povo neste momento é “avança comandante Mugabe”. Só para quem nunca conheceu verdadeiramente a história do Zimbawe pode tirar mérito ao presidente Mugabe e as suas políticas. Ah, mais uma pergunta, aqueles farmeiros que depois se refugiaram em Manica porque é que não ficaram por lá? Porque é que regressaram à Inglaterra? O Sr. Tsivangirai depois de ocupar a gostosa cadeira de primeiro-ministro nunca mais voltou a falar contra o prisidente Mugabe e das suas políticas, porque? Não era umas caixa de ressonância? Porque é que os lideres africanos bons pilatos que sabem ser nunca o julgaram como um criminoso? Porque sabem que nele há existe nenhuma culpa. Por favor, deixem de criticar (os críticos) o presidente Mugabe e as suas políticas, façam-no contra o Bush e outros ditadores democráticos…

    Mais uma vez queria endereçar as minhas felicitações ao Dr. Egídio Vaz pelo seu blogue. E se este me permitir o autor, convido-vos a lerem um dos maiores livros de ficção da nossa literatura, Arrone Fijamo Cafar – Ecos de Inhamitanga, quem o tiver na sua cabeceira é favor de aprender com o autor.
    Zicomo (obrigado)

  5. E a primeira vez que vejo este blog mas, sinto – me bastante feliz pois creio que aqui posso debater(com pessoal interressado) sobre este assunto que me incomoda sobre maneira.
    E triste o senario que se vive ao longo das zonas fronteiricas de Tete e Manica com homens e mulheres vivendo em condicoes sub-humanas, tendo as mulheres que praticar o negocio do sexo para garantir umas migalhas no estomago. Sem esperanca nenhuma vivevem as criancas que pelas sub-condicoes impostas pelo regime de MUGABE veem-se privadas do direito a educacao e saude.
    Procuro um um Link, onde se possa debater, trocar ideais, para ajudar aresolver um problema que, se nao for resolvido na escencia podera um dia ser o nasso cancro de ca.
    Sun gonna shine ZIMBABWE

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