Existe na língua inglesa um ditado que, traduzido para o português fica mais ou menos como “não é possível ensinar novos truques a cães velhos”. Tal provérbio encerra a noção de que você não pode fazer as pessoas mudarem seus padrões de opinião e comportamento já bem estabelecidos. É difícil, na melhor das hipóteses. Porém, os naturalistas têm opinião diferente. Eles argumentam que nunca é tarde para ensinar novos truques a um cão velho! Se você criar um cão velho, você pode se surpreender com a sua capacidade de se concentrar e aprender coisas novas. Segundo esses especialistas, cães adultos são muitas vezes mais fáceis de treinar do que os cachorros, porque eles têm a capacidade de se concentrar por um longo período de tempo.
Vem esse intróito a propósito dos recentes pronunciamentos de políticos nacionais sobre a possível corrupção que seus partidos estão sendo alvos. Sande Carmona afirmou recentemente que no MDM existem membros com características de inimigo. Alguns membros do Comitê Central da Frelimo denunciaram a “infiltração” de agentes estranhos seio do seu partido; que apenas se interessam com os benefícios.

Bem, discursos vigorosos sempre soam bem quando se está em desvantagem. Longe de sugerir a infiltração, talvez fosse possível e mais profícuo questionar como tal foi possível. Durante o tempo de Samora Machel, nem todos moçambicanos eram membros da Frelimo – automaticamente. O cidadão solicitava o cartão de membro, era escrutinado e admitido. Mas aquele foi um tempo ido. O advento da democracia multipartidária possibilitou a emergência de outros partidos. Porém, algumas práticas da Frelimo mantiveram-se intactas e quase que usadas como forma para gestão e manutenção do poder: desconto de cotas do partido “na fonte”, reuniões de célula do partido no local de trabalho, nomeação para cargos de direcção por confiança manifestamente política, entre outros. Ou seja, estamos a falar da chamada partidarização do estado. Ora, na minha opinião, o que alguns membros da Frelimo chamam por “infiltração” não passa da “maturação de um processo clientelista”, que muitas vezes não é capaz de satisfazer as expectativas de todos, frustra a tantos e promove a exclusão.

É hora de mudar de política, de encontrar novas formas de gestão de quadros e de fidelização de membros e, mais importante ainda, é hora de mudança de paradigmas.
Por muito tempo até há pouco, qualquer homem sensato interessado em crescer profissionalmente, principalmente no estado e nos negócios era natural e lógico parecer ser da Frelimo. Tal lhe possibilitava inscrever-se com sucesso nos seus objectivos. Membros da Frelimo tinham que evitar amizades com pessoas “percebidas” como da oposição e vice-versa. O termo “camarada” era a contra-senha do alinhamento. Ou seja, apertou-se o cerco aos recursos do poder e ao próprio poder a todos aqueles que não fossem membros da Frelimo. Como seria possível fazer a selecção de melhores membros, distinguir entre interesseiro do verdadeiro, do membro laborioso do malandro se a própria Frelimo decidira fechar as fontes de sobrevivência a todos que parecessem com “inimigo” por esta via impediu que a adesão as fileiras fosse por vontade e convicção próprias? O que estou a dizer não é segredo para ninguém. E cresceu ao longo do tempo a percepção dentro dos próprios membros da Frelimo, a expectativa de recompensa pecuniária pelo alinhamento e punição pelo desalinhamento. Pelo que, a condição principal para singrar já não era o profissionalismo, a inovação ou a entrega. Bastava gritar muitas vivas em tudo para ser considerado apto. É óbvio que isso atraiu todo tipo de gente, quais mariposas na presença da luz!

Ora, que solução? Purgar as fileiras? Como se faz isso? O Professor Julião Cumbane teria alinhavado num post de Facebook algumas ideias. Mas uma das coisas que a própria Frelimo deve saber – e sabe – é que com o andar do tempo, as vitórias retumbantes vão ser cada vez mais difíceis de assegurar. É que as pessoas pensam diferente e gostam de mudanças. Ora, se a própria Frelimo não se antecipar à própria mudança, as suas vitórias serão ainda mais mitigadas. O discurso de “infiltrado” nosso/deles está longe de ser a mudança que se quer. Os motivos para adesão ao partido devem ser diferentes da mera sobrevivência.

O modelo neopatrimonialista está esgotado. O partido deve não só modernizar-se, incluindo o seu redimensionamento, como deve mudar de foco na sua acção política: em vez de ter um modelo de crescimento ancorado na angariação de mais membros pela lógica clientelista (punição/recompensa pela filiação) – algo que promove a sensação de exclusão, ela deve falar com os cidadãos. Os votos vêm dos cidadãos e não necessariamente dos membros. Quem dá vitória aos partidos políticos são cidadãos que votam. E esses cidadãos devem sentirem-se bem com a governação e engajados na mesma. O que estou a sugerir é o rebranding da própria Frelimo e não o seu regresso aos modelos stalinistas de governação e purga políticas sugeridos por alguns. Olhem para outros partidos lá fora: Estados Unidos, Inglaterra, Nigéria ou mesmo Kenya: o que os definem não são necessariamente as cores partidárias, mas a identificação partidária dos cidadãos. Uma governação suprapartidária sempre trás benefícios para o partido no poder enquanto o partidarismo cria facções, fricções e conflito pelo acesso a recursos de poder e por esta via, uma sociedade polarizada.
Não são as pessoas que se infiltram no partido, seja eles MDM, Renamo ou Frelimo. São as políticas e as estratégias adotadas por esses partidos que permitem tais comportamentos clientelistas. De uma ou de outra forma, o sucesso da Frelimo (partido que governa) vai depender do nível e da sua capacidade de engajar os cidadãos na governação e não necessariamente na purga às suas fileiras. É só pensar assim: se já enquanto estão dentro da Frelimo são tão maus, imagina eles fora? O mesmo que se diga em relação aos partidos da oposição. A politica de recrutamento de novos membros apenas deve ser guiada para o resultado final, que é a de manter uma máquina suficiente e eficiente para levar a cabo o trabalho político necessário junto do eleitorado.

Os partidos políticos devem aprender novas formas de gestão partidária pois os modelos ora em voga estão esgotados. Parem de fazer política virada a membros. Façam-na olhando aos cidadãos. Os partidários são parte activa do trabalho político, e não clientes partidários.
Bem-vinda a ciência!

VOCABULÁRIO
Partidarismo: comportamento partidário excessivo; em que há fanatismo ou exagero partidário; obsessão cega por uma divisão ou por determinado partido (político), que no extrema leva à apresentação de atitudes e posturas parciais e injustas.